domingo, 23 de janeiro de 2022

AS LUZES DA NOITE

Quando crianças, eu meus irmãos morávamos no interior do nosso município, num vilarejo chamado Queimadas. Como não havia luz elétrica, o povoado ficava completamente escuro após o anoitecer. Nossa brincadeira noturna era correr atrás de umas luzinhas noturnas que voejavam no campo que havia em frente à nossa casa. Apanhávamos aquelas luzinhas num frasco de vidro e, quando já havia uma porção delas, soltávamos todas de uma só vez. E elas saíam juntas a iluminar a escuridão.

Para quem não sabe, essas luzinhas voadoras são insetos, chamados vagalumes, ou pirilampos. Eles possuem no corpo uma substância luminescente, que é ativada voluntariamente por eles como se fosse uma lâmpada. Essas luzes são utilizadas pelos vagalumes como sinalizadores para eles poderem se encontrar.

Para visitar os vizinhos à noite, ou ir à igreja rezar a novena, seguíamos pela estrada carregando velas ou lanternas. De tempos em tempos aparecia a Lua, então nossa pequena vila ficava iluminada com sua luz tênue, e era possível deslocar-se pelas estradas sem velas ou lanternas.

Numa noite sem Lua e sem nuvens, nosso pai chamou eu e meus irmãos para deitarmos com ele na grama. Ele lia muitas revistas sobre viagens espaciais e queria repartir conosco seus conhecimentos. Deitamos todos de barriga para cima e ficamos olhando a escuridão do céu. Estava salpicado de pontos de luzes. Mas desta vez não eram os vagalumes. As luzes estavam pregadas no céu, como num imenso teto preto. E aquela foi a primeira vez que eu e meus irmãos vimos o céu, de verdade. Porque nosso pai havia nos convidado a uma contemplação à qual não estávamos acostumados. Ele apontava o infinito e dizia: “Olhem, lá estão as Três Marias”; “Lá está o Cruzeiro do Sul”. Então percebemos como as estrelas formavam desenhos quando agrupadas. Ele também nos contou das viagens dos astronautas, que poucos anos antes haviam chegado à Lua. E nos falou da possibilidade de haver seres iguais a nós em outros planetas.

Eu e meus irmãos ficamos muito satisfeitos com aquela experiência. E pensávamos que agora sabíamos tudo sobre o céu e as estrelas. Mas alguns anos depois, quando comecei a ler sobre astronomia, descobri que eu ainda não sabia nada. Que no decorrer dos séculos foram feitas milhares de descobertas incríveis sobre as estrelas, os planetas, os cometas, as galáxias, e que eu ainda tinha muito a aprender.

domingo, 20 de março de 2016

O ASSALTO AO DOLEZEIRO

Quando vemos os guris fazendo maldades e sendo conduzidos à delegacia, nossa primeira reação é condenar os pais e os professores. E gritar pela redução da maioridade penal. Mas antes não seria melhor tentar entender o que acontece com a piazada? Por que tantos se entregam à malandragem e, pior, ao crime?
Parece que há uma força imperiosa empurrando os garotos à beira do abismo. Eles passam o dia estimulando uns aos outros a provar sua força e valentia. A partir dessas atividades, e dependendo do nível de carência material dos guris, muitos se tornam assaltantes e até assassinos.
Na década de 1960 minha família e as dos meus primos eram razoavelmente bem fornidas. Nossos pais tinham empresas ou estavam bem empregados. Minha mãe era professora e meu pai sempre falava das lições da bíblia. Conselhos e estofo moral não nos faltavam. Não passávamos fome e havia moedas esquecidas nas gavetas, com as quais comprávamos doces e toda sorte de guloseimas. Por que, então, fomos assaltar o dolezeiro?
Ele passava na frente do depósito de cebolas do meu pai, chorando, quando foi chamado pelo delegado, que se encontrava no local. O Sargento, como era chamado, um sujeito alto, gordo, de bigode preto (é como me lembro dele) havia sido chamado pelo meu pai para investigar o roubo de uma carga de cebola. Tão logo o sorveteiro contou sua desgraça, o Sargento tirou umas notas do bolso e pagou-lhe o prejuízo. Todos ficaram se perguntando quem roubara os dolés e quebrara a caixa do dolezeiro. Meu irmão Dilan, que assistia à cena dolorosa e a descrição feita pelo assaltado, não teve dúvidas sobre quem eram os autores do delito.
O menino passava ali na esquina, fazendo seu firulim-firulá, chamando os fregueses dos dolés. Eu, o Careca e o Tigela saímos do mato, fazendo de conta que queríamos comprar uns dolés. Cada qual apanhou o seu e deu no pé, sem pagar. Mas o Tigela, para mostrar que era ainda mais maldoso que todos, antes de evadir-se deu um chute na caixa, fazendo espalhar os gelados no meio da rua!
Minutos depois estávamos próximo ao poço lá de casa, planejando a próxima diabrura, quando senti a orelha amortecer. No mesmo instante vi o Careca voando sobre o gramado, após levar um sopapo do meu irmão. E logo depois estava o Tigela em disparada, tentando escapulir do seu castigo, quando Dilan lhe aplicou um chute no traseiro, fazendo-o voar por sobre a cerca da nossa casa.
Agora você me pergunta: os pés-no-ouvido e o chute que levamos resolveu alguma coisa? Desistimos de ser malandros? Pelo contrário, continuamos apavorando a vizinhança, caçando passarinhos e peloteando os namorados que se deslocavam na direção da subida do Gusto Buczka. Isso foi até os onze ou doze anos, quando surgiram novos interesses. Porque até então nosso maior interesse era mostrar uns aos outros que éramos “homens”, e homem que é homem é valente e destemido (mesmo que, ao pé da letra, isso signifique fazer coisas covardes, como roubar os dolés de um pobre dolezeiro solitário e desprotegido)! Somente os anos viriam abaixar a nossa crista!

A humanidade é estranha e raramente a compreendemos. Quando pensamos estar chegando próximo ao entendimento, surgem novos dados e constatamos que nada sabemos. Como disse Aristóteles na Caverna do Tempo, “A verdade é um bicho da família dos lagartos. Na hora que tu pegas, ela solta o rabo e continua correndo”.