Quando vemos os guris fazendo
maldades e sendo conduzidos à delegacia, nossa primeira reação é condenar os
pais e os professores. E gritar pela redução da maioridade penal. Mas antes não
seria melhor tentar entender o que acontece com a piazada? Por que tantos se
entregam à malandragem e, pior, ao crime?
Parece que há uma força imperiosa
empurrando os garotos à beira do abismo. Eles passam o dia estimulando uns aos
outros a provar sua força e valentia. A partir dessas atividades, e dependendo
do nível de carência material dos guris, muitos se tornam assaltantes e até
assassinos.
Na década de 1960 minha família e as
dos meus primos eram razoavelmente bem fornidas. Nossos pais tinham empresas ou
estavam bem empregados. Minha mãe era professora e meu pai sempre falava das
lições da bíblia. Conselhos e estofo moral não nos faltavam. Não passávamos
fome e havia moedas esquecidas nas gavetas, com as quais comprávamos doces e
toda sorte de guloseimas. Por que, então, fomos assaltar o dolezeiro?
Ele passava na frente do depósito de
cebolas do meu pai, chorando, quando foi chamado pelo delegado, que se
encontrava no local. O Sargento, como era chamado, um sujeito alto, gordo, de
bigode preto (é como me lembro dele) havia sido chamado pelo meu pai para investigar
o roubo de uma carga de cebola. Tão logo o sorveteiro contou sua desgraça, o
Sargento tirou umas notas do bolso e pagou-lhe o prejuízo. Todos ficaram se
perguntando quem roubara os dolés e quebrara a caixa do dolezeiro. Meu irmão
Dilan, que assistia à cena dolorosa e a descrição feita pelo assaltado, não
teve dúvidas sobre quem eram os autores do delito.
O menino passava ali na esquina,
fazendo seu firulim-firulá, chamando os fregueses dos dolés. Eu, o Careca e o
Tigela saímos do mato, fazendo de conta que queríamos comprar uns dolés. Cada qual
apanhou o seu e deu no pé, sem pagar. Mas o Tigela, para mostrar que era ainda
mais maldoso que todos, antes de evadir-se deu um chute na caixa, fazendo
espalhar os gelados no meio da rua!
Minutos depois estávamos próximo ao
poço lá de casa, planejando a próxima diabrura, quando senti a orelha
amortecer. No mesmo instante vi o Careca voando sobre o gramado, após levar um
sopapo do meu irmão. E logo depois estava o Tigela em disparada, tentando
escapulir do seu castigo, quando Dilan lhe aplicou um chute no traseiro,
fazendo-o voar por sobre a cerca da nossa casa.
Agora você me pergunta: os
pés-no-ouvido e o chute que levamos resolveu alguma coisa? Desistimos de ser
malandros? Pelo contrário, continuamos apavorando a vizinhança, caçando
passarinhos e peloteando os namorados que se deslocavam na direção da subida do
Gusto Buczka. Isso foi até os onze ou doze anos, quando surgiram novos
interesses. Porque até então nosso maior interesse era mostrar uns aos outros
que éramos “homens”, e homem que é homem é valente e destemido (mesmo que, ao
pé da letra, isso signifique fazer coisas covardes, como roubar os dolés de um
pobre dolezeiro solitário e desprotegido)! Somente os anos viriam abaixar a
nossa crista!
A humanidade é estranha e raramente a
compreendemos. Quando pensamos estar chegando próximo ao entendimento, surgem
novos dados e constatamos que nada sabemos. Como disse Aristóteles na Caverna
do Tempo, “A verdade é um bicho da família dos lagartos. Na hora que tu pegas,
ela solta o rabo e continua correndo”.

